segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Um livro de vez em quando: "Madrugada Suja", de Miguel Sousa Tavares

 
Miguel Sousa Tavares, depois de grandes êxitos como "Equador" e "Rio das Flores", volta a agitar a literatura portuguesa e sobretudo os seus seguidores, com o seu novo romance, "Madrugada Suja", que tive o prazer de ler em Agosto.
No princípio, há uma madrugada suja: uma noite de álcool de estudantes que acaba num pesadelo que vai perseguir os seus protagonistas durante anos. Depois, há uma aldeia do interior alentejano que se vai despovoando aos poucos, até restar apenas um avô (Tomás da Burra) e um neto. Filipe, o neto, parte para o mundo sem esquecer a sua aldeia e tudo o que lá aprendeu. As circunstâncias do seu trabalho levam-no a tropeçar num caso de corrupção política. Ele enreda-se na trama, ao mesmo tempo que esta se confunde com o seu passado esquecido. Intercaladamente, e através de várias vozes narrativas, seguimos o destino dessa aldeia e em simultâneo o dos protagonistas daquela madrugada suja e daquela intriga política. Até que, no final, dois dos protagonistas da madrugada suja, Filipe e Eva, acabam por se reencontrar, numa paixão, anos depois.
No fundo, a obra acaba por ser uma história romanceada dos últimos 40 anos da vida pública portuguesa. Fala sobre os acasos da vida e a corrupção política, do Alentejo da Reforma Agrária até hoje.
Miguel Sousa Tavares decanta no romance alguns dos seus ódios de estimação ou dos seus cavalos de batalha: o pato-bravismo, os especuladores imobiliários, a corrupção em algum poder autárquico.
Uma visão desencantada dos efeitos do Portugal pós-Europa:
“Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados “frangos do campo”, ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria”.
"Madrugada Suja" é um livro envolvente. Tem romance, tem história, tem crítica social e política:
"Todos estavam endividados, mas felizes: o Estado, as autarquias, os cidadãos. Todos viviam em casa própria, mas que, de facto pertencia ao banco que lhes emprestara dinheiro a 30 anos e também emprestara para as férias no Brasil, Cuba, República Dominicana, mais o carro e os brinquedos electrónicos dos filhos".
Uma obra sobre o Portugal dos nossos dias, com as suas virtudes e os seus defeitos, as utopias e as desilusões, que importa ler e reflectir.
Excelente!
350 páginas bem escritas, de leitura acessível e estimulante.

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